Rafael Alonso | O Sol de Ezequiel

O Sol de Ezequiel ou Radiâncias da Luz em Pele Escura

O Sol morrerá, finalmente, dentro de 5 bilhões de anos, depois de expandir 180 vezes o seu tamanho e de aumentar milhares de vezes o seu calor e brilho, engolindo a vida na Terra inteira. O seu núcleo, à medida que for ficando sem hidrogénio e sem hélio, contrair-se-á, e as suas camadas exteriores expandir-se-ão, arrefecidas, tornando-se menos e menos brilhantes. O astro transformar-se-á então numa enorme estrela vermelha, sem brilho, sem charme, quase sem luz. Depois desta fase, as camadas exteriores continuarão a expandir-se mais, e os átomos de hélio fundir-se-ão, formando átomos de carbono e libertando energia. Então, o núcleo solar tornar-se-á estável, uma vez que os átomos de carbono não serão mais compressíveis. As camadas exteriores do Sol entrarão em deriva pelo espaço, formando uma nébula planetária (uma nébula planetária não tem nada a ver com planetas), e assim expondo o seu núcleo. A maior parte da massa solar transformar-se-á nessa nébula. O que resta do Sol arrefecerá e encolherá até ter apenas alguns milhares de quilômetros de diâmetro (tem hoje 1.392.684 km). O Sol é agora um pequeno ponto pálido, constante, e sem qualquer combustível nuclear. Irradiará o restante do seu calor durante alguns bilhões de anos. Quando este por fim se dispersar, tornar-se-á um minúsculo anão, negro e frio: basicamente uma Dead Star. Muito provavelmente, sua superfície ficará agora totalmente coberta de gigantescos diamantes (carbono altamente comprimido).

Ora, é precisamente destes últimos diamantes – e que brilho de luz os animará então, solitários? – que o artista Rafael Alonso aqui se ocupa. Talvez sem saber, talvez sabendo ou pressentindo, são os atalhos atuais dessa final origem o que vai aqui criando, inventando, reproduzindo. Para isso, mostra-nos o primórdio e o percurso desse fundamental processo, já claramente em movimento. No início, desdobra e desconstrói o próprio Sol – arquétipo supremo feito aqui estudado esboço -, numa incandescente sala de mil sóis; no processo, noutra sala, revela radiâncias tropicais de calor e luz, discorrendo tanto sobre o eclodir fundamental da própria vida, quanto sobre um mundano sedutor e enganoso – o sensual reflexo -, um embuste pertinente aos nossos tempos, bem como ao lugar que o artista habita e vivencia.

Podemos assim dizer que se é em duas salas que se divide a ocupação de Rafael Alonso nesta exposição, a distância entre elas está longe de ser meramente circunstancial, estratégica ou até simbólica, representando antes uma clara polarização fundamental: entre o cósmico/infinito e o profano/efêmero; entre a potência mais pura da luz, e seu mais fútil efeito – derramada e assim corrompida no plano -; entre a origem inalcançável e superior de toda a vida, e uma humana materialidade feita de reflexo em distorção, finitude e ilusão colorida. Esta abordagem contemporanizada e até, queremos dizer claramente, politizada da luz – questão fundamental que sempre atravessou o universo pictórico e criativo bem como todo o imaginário humano -, assume-se bem distante de uma formalidade caduca, de classicismos ou de postulados teóricos e herméticos, antes se revestindo de um caráter marcadamente pessoal e mundano, de relevante leitura crítica e vivencial dos tempos e lugares em que acontece.

E é também desse cromático mundano, – o trópico carioca, que irradia incandescente e imparável no imaginário e no quotidiano de uma cidade que se quer total e maravilhosa -, da incomparável capacidade da luz de incorporar, e assim, dar cor fugaz, a todas as mais humanas emoções e fantasias; e até de uma incontornável subserviência íntima aos desígnios – tão sedutores quanto enganosos – de uma certa tropicalidade efervescente e carnívora, que parece querer tratar toda esta mostra. Nas próprias palavras do artista: “Talvez eu esteja falando de uma obrigação de ser feliz”.

Aqui, condicionados pelas limitações da(s) moralidade(s) e pela pressa que o tempo nos impõe, reféns de uma condição de assumida finitude, e em constante busca de uma concretização qualquer – irrecusável na sua insatisfatória natureza -, vamos nos afastando sempre mais dessa luzidia e plena existência, tentando, constantemente, a ela mais aceder. Pois se o sol é a luz mais pura, a superfície que a distorce e acolhe é aqui também tela presa e pele escura. A cor mergulha, enfim, exausta e mansa, envolvida em tinta acrílica, mas esta esbarra na tela e pára, sem nela entrar. Isto não é um acaso nem um recurso inócuo: é a representação clara da impermeabilidade plástica, forçada e ilusória, de todo um colorido artificial quando frente ao astral mais elevado, primordial e luminoso. Vivemos encantados e meio cegos, deslumbrados pelos reflexos coloridos que projetamos, cultivamos e nos atraem, feitos reféns de uma exterioridade tão incandescente quanto inócua, seduzidos por uma superficialidade inconsequente, fraudulenta e redundante.

Mas esta crítica de costumes (uma “pintura vernacular”, como refere Alonso) não existe sem um misto de certa perversidade e ironia: o artista traz para a galeria – em teoria, o habitáculo privilegiado da excelência artística -, a rentabilização mais comercialóide do espaço expositivo, que encontramos numa qualquer feira de bairro, de uma qualquer cidade turística. Os mil sóis são propositadamente dispostos num aproveitamento espacial coerente com a sua mais intrínseca e intencional natureza: serem meras tentativas destinadas ao fracasso de reproduzir o irreproduzível, e cuja grande manobra é tornarem-se, finalmente, apenas os objetos centrais de uma troca de relativo valor. Apetece dizer que o artista aqui conosco se revolta, em integração inspiradora e criativa, contra uma objetificação estrutural manipuladora, perversa e perigosa, que atravessa – em tons de fabricado pigmento pretencioso – todo o nosso quimérico dia-a-dia. E esta mais que sombria presença impregna, imparável e irredutível, um dos territórios supostamente mais livres e criativos do homem: o pensamento artístico.

É assim, de dentro de uma ação pictórica autêntica e reflexiva, assentada no seu próprio sentir e agir no mundo, que Rafael Alonso nos coloca sensivelmente ao seu lado, para que possamos juntos vislumbrar e entender já, que somos nós mesmos esses últimos diamantes, decantados, de brilho independente e luminoso, e sem qualquer maior reflexo. Por enquanto, apenas por aqui perambulando, ocupados, equivocados e distraídos.

P.S. – Ezequiel passeia alegremente pela Zona Sul do Rio de Janeiro o seu talento instantâneo, e vai capturando a cidade e o Brasil ao vivo, em pinturinhas que faz especialmente para quem o vai encontrando no caminho, e assim as vende pelo melhor preço, ou nem por isso. Ezequiel pinta o Sol e as cores do Rio como ninguém, manipulando a tinta acrílica com as mãos nuas, criando belas paisagens que sambam brasileiras sim, de um verão eterno e quente, de pele mulata e brilhante pintura, molhada e cálida, ligeiramente salgada. Afinal, doces promessas de eterna felicidade, as pinturinhas capturam a afamada maravilha de uma cidade assim solar e colorida, destino ansiado em tantos momentos de ficção e de utopia, numa miragem delirante pelo mundo inteiro mal construída. Ezequiel sabe disto como ninguém, e o que pensa realmente ou vive nós não sabemos. Mas, espalhadas pelo mundo em recantos poeirentos e esquecidos – e num ou noutro corredor, quarto ou sala -, as pinturinhas cantam animadas sempre, luminosas e coloridas, da cidade que é felicidade acima de tudo, e mais sonho e mar quente e fantasia.

P.S.2 – Por mero acaso ou conjugação estelar, esta mostra coincide com Noite Americana ou Luas Invisíveis, de Gisele Camargo, exposta no andar de baixo. É irresistível mencionar aqui a deliciosa co-incidência deste encontro astral – de masculino e feminino essenciais -, e apenas intuir o que de belo e de sutil poderá sair desta conversa, de dois amantes que em dança eterna aqui se encontram, sem distância.