Joana Traub Csekö | Elegias Cariocas

Photographie Veritable

(ao meu amor)

A exposição “Elegias Cariocas“ é formada por duas famílias de trabalhos que compartilham de uma mesma raiz: o desejo de perpetuar rastros do que estava fadado a desaparecer. A primeira dessas famílias reúne parte do resultado mais recente da série desenvolvida por Joana Traub Csekö desde 2010 intitulada “Passagens”, na qual a artista elabora especificamente para a situação da exposição conjuntos de fotografias que pensam a cidade, o bairro ou o espaço institucional onde acontece. São Paulo, Buenos Aires e Copacabana são alguns dos que já inspiraram essas pesquisas. Agora, o interesse de Joana encontra os imóveis localizados no Centro antigo da cidade do Rio de Janeiro. O procedimento formal recorrente em grande parte desses trabalhos é baseado na criação de fusões, em manipulações digitais, entre imagens atuais capturadas por Traub Csekö e fotografias antigas de autores desconhecidos encontradas em mercados de pulgas ou feiras de antiguidade. Em alguns dos trabalhos dessa exposição, as aproximações e coincidências encontradas/construídas nesses encontros entre imagens de tempos diferentes geram comentários críticos sobre o crescimento da cidade e sobre o homem que desaparece com a cidade que se transforma. Durante os últimos anos, Joana teve de construir uma ampla coleção de fotografias antigas para serem digitalizadas e utilizadas na série das Passagens. Essa coleção reverbera a dedicação da artista às coisas que parecem marcadas ao desaparecimento. As “Passagens – Sobrados” são elaboradas num momento em que parte do centro histórico do Rio sofre grandes reformas estruturais enquanto é cenário de um controverso e trágico processo de gentrificação. Não é a primeira vez que esse bairro passa por um projeto de reforma urbana radical, e as duas ocasiões anteriores foram responsáveis pelo quase desaparecimento desse tipo especial de arquitetura carioca muito importante para a cultura brasileira dos séculos XIX e XX: o sobrado. O interesse de Joana sobre as coisas dissipantes que resultou em sua coleção de fotografias antigas, nessa exposição, foi direcionado aos sobrados do centro do Rio. Joana pesquisou aqueles que ainda restam e, antes que desaparecessem, fotografou suas escadas. Parece que mais importante do que representar cada sobrado individualmente seria conseguir reproduzir a alma desse tipo de edifício e os rastros de uma forma de habitar o mundo que era desenhada junto a suas paredes. Nessas fotografias, não sabemos se essa escada que vemos nos leva ao andar de cima ou de baixo, não sabemos exatamente onde está localizada, não sabemos onde está o chão, onde há uma porta, não sabemos quem sobe ou desce, mas entendemos que esses degraus são o próprio tempo.

A segunda família de trabalhos que compõem essa exposição é formada pelos primeiros frutos de uma série inédita. O acervo de fotos antigas coletadas por Joana, pela primeira vez, é usado fisicamente como material para a construção de trabalhos. Traub Csekö se utiliza de lentes de aumento, luz e espelhos para assinalar e revelar nessas imagens alguns discretos detalhes que poderiam passar despercebidos. Em um desses trabalhos, uma lupa aponta para o verso de um postal no qual se lê “Vera Fotografia” – o que acabou se tornando o título dessa série. Há ainda um grupo de trabalhos em que pares de fotografias são sobrepostas a caixas de acrílico iluminadas por trás. Nesses pequenos aparatos que funcionam como “mesas de luz”, as duas imagens se fundem, gerando uma terceira que é fruto desses encontros críticos e crônicos. Os resultados algumas vezes são análogos àqueles alcançados pela série “Passagens”, mas, agora, são obtidos apenas com recursos óticos. Nessa série, como na anterior, há um convite para o delírio, mas, por operar junto à materialidade das fotografias, o resultado surpreende ao mostrar o que sempre esteve oculto podendo ser evidente. Em “Elegias Cariocas”, Joana une esses dois grupos de trabalhos para, criando fricções entre acasos, cercar a relação entre o desaparecimento inevitável de tudo e a perpetuação de seus rastros, sombras, fantasmas e afetos.