Coletiva | Primeiro estudo: sobre amor




Primeiro estudo: sobre amor



(ao meu amor)
(essa é pra você, meu amor)

Essa exposição é aberta sob a lua cheia, quando são intensificadas a vivência e a reflexão dos “recursos compartilhados”. Com os trabalhos que apresentamos, questionamos o amor. Aqui, apontamos a repressão característica do amor romântico e a possibilidade de escolhê-lo de forma criativa, profunda e saudável. Fazemos um elogio ao desejo e ao tesão, assinalando a beleza da fome de outro e da fome de mundo. Convidamos a percepção a habitar por um momento a membrana relacional para que, a partir desse frágil lugar, possamos investigar as tensões internas e entre sujeitos. Nessa mostra, associamos corpo, imagem e narrativa, para tentar encontrar a faísca no ponto onde a linguagem toca a pele. Questionamos como é ser uma escultura esculturante, texto reescrevente, cuja forma se revela e refaz por golpes de tempo. Nessa mostra, como no amor, todo cuidado é muito, e é preciso estar atento e só.

Repeti, nos últimos anos, quase cinquenta vezes a dedicatória “ao meu amor” em catálogos, brochuras, folders e paredes de exposição. Em algumas ocasiões, fui indagado sobre a pertinência e as razões dessa ação. Respondo aqui.

Com o documento ainda em branco, escrevo, no topo da página, “ao meu amor”. Faço isso para não me deixar esquecer o motivo pelo qual escrevo e, sobretudo, pra me lembrar de como eu decidi preencher o tempo enquanto ele existir pra mim. Não endereço a expressão a uma pessoa, mas sim ao sentimento motor. Porém, o que é isso que chamamos de amor? E por que seria aconselhável (ou imperativo) preencher nosso tempo com ele?

Outro hábito que exercito é o de construir listas de trabalhos de artistas que me afetam com muita força. Um desses conjuntos reúne peças que podem servir a uma possível elaboração de sentido sobre amor. Essa exposição revela uma pequena e especial parte desse conjunto e experimenta seus encontros. É importante que se diga que nem todos os trabalhos que compõem essa mostra têm origem em pesquisas sobre amor, porém todos comungam da condição de resultados de explorações de questões que podem ser importantes para uma investigação sobre nosso objeto de estudo.

Tecendo o pensamento de Butler e Drummond, de Roberto Freire e Toni Negri, das narrativas ameríndias e dos conselhos de Oxum, de Leminski e Elizabeth Bishop, de Espinosa e Perniola entre outros, entendemos que o amor se relaciona diretamente com a capacidade de ensinar a ver e de criar sentido. O amor é instrumento importante para que se possa viver no mundo pelos meios da poesia e não da prosa: poética e não prosaicamente. O amor é a chave do encontro, da presença, da porosidade e da transformação. Essa exposição conta uma história inteira – do começo até o começo -, e reúne peças para pensar e evocar o amor.