Leonardo Finotti | Pelada

Pelada



É tema de mesa de bar. De boteco. De restaurante. De sala de estar. É conversa fiada no ponto de ônibus. É conversa afiada e ponto. Todo mundo entende. Sabe dar um palpite. Todo mundo vira técnico. Todo mundo conhece a mãe do juiz. Todo mundo sabe driblar. Fazer um passe. Todo mundo sabe entrar em campo. Sabe, e muito bem, que para ter campo não precisa de muito. Sabe que com duas marcações se faz um gol. Com um grito se faz uma torcida. Com um time, uma paixão nacional.

Entre retratos e registros sobrevoando a periferia de São Paulo, Leonardo Finotti apresenta uma coletânea mais que sincera de espaços dignos de estádio. De espaços sagrados que comprovam não só que o país é do futebol, como revelam o que o futebol é para o país. Com temas atuais como o esporte de Igor Vidor, a infância e a juventude de Paula Trope, as águas de Pedro Varela e o trabalho com colagem e escultura de Lucas Simões, a mostra tem ainda um tom bem brasileiro, abrangendo artistas de várias regiões do país, como os paraenses Alexandre Sequeira e Armando Queiroz, o trabalho engenhoso, provocativo, lúdico e, acima de tudo, belo do paranaense Claudio Alvarez e a dança dos pincéis da mineira Marina Simão.

As obras apresentadas por Igor Vidor têm um quê de Jogos Olímpicos – do lado negro deles. Ex-atleta profissional de futebol – carreira promissora que abandonou, cansado do esquema de propinas e aliciamento que impera no meio –, ele derreteu todas as medalhas que ganhou para fazer o molde de sua última chuteira e vai expô-la na mostra. Resquícios da arquitetura de casas demolidas e das reformas feitas na cidade para os Jogos são a matéria-prima de sua outra obra na mostra. “Desapropriaram pessoas para fazer as olimpíadas”, lamenta, explicando que pedaços de tijolos e paredes, com partes internas e externas, denunciam as relações público/privadas. Bolas de basquete, raquetes de badmington estarão “agredindo” as paredes.

As bolas de tênis de Igor – Tênis Clube 3 – pertencem a Lucas, Mailon e Rafael, de 17, 16 e 14 anos, respectivamente, jovens de Santa Cruz, subúrbio do Rio, que fazem acrobacias com as bolas nos sinais da cidade. Depois de usadas, eles são doadas ao artista. “A cromia da obra acaba vindo deles, das bolas mais ou menos usadas. E o resultado das vendas é dividido em três partes iguais: para a galeria, para mim e para os meninos”, explica o artista. Já os trabalhos de Paula Trope mostram a continuidade da série “Câmera Luz”, que ela desenvolve desde 2010, e da série “Casulos” – uma documentação poético-fotográfica do primeiro ano de vida de seu filho mais novo, Antonio. “Câmera Maloca” é um protótipo em miniatura da verdadeira câmera – um cilindro com dois metros de altura e três de comprimento, que ainda será construída e homenageia a arquitetura indígena. “O protótipo, por si só, é um objeto curioso. E com ele já é possível ter uma interação com as mesmas características do original”, explica a artista. Da série “Casulos”, Paula vai apresentar “Antonio com 10 meses” – “é uma característica recorrente de meus trabalhos, mostrar o entorno do meu universo mais íntimo”.

WALDICK JATOBÁ