PEDRO VARELA | UN PASSÉ QUI NE PASSE PAS

Arte, coisa do passado

"Um passado que não passa" este é o título e o enfoque conceitual que, logo de início, nos faz refletir sobre os modos como lidamos com fatos que insistem em retornar. Pedro Varela, na atual exposição, se relaciona tanto com a própria história recente de sua produção, revendo procedimentos, reencontrando ordenações em novas escalas, repensando as inserções diretas no espaço expositivo, quanto com o passado colonial da América Latina.

De outro modo, aquilo que Nietzsche denominou "eterno retorno" ganha, a partir das imagens e personagens implicados nas pinturas e desenhos de Varela, conotações históricas, culturais e alegóricas. Além disso, estamos diante de uma crônica política, pois o estoicismo, movimento filosófico da antiguidade, acreditava que a conduta ética deveria se tornar o destino a se cumprir.

Nas pinturas de Pedro Varela, justamente nas clareiras onde encontramos este "passado", as condutas éticas destacam ícones da violência que retornam como fantasmas a nos encarar plenos de perguntas: o que fizemos com a exploração da terra empreendida pelos bandeirantes? De que modo a escravidão nos conduziu às atuais relações de trabalho? O que aconteceu com as características identitárias do Brasil a partir do legado de Carmen Miranda e Zé Carioca?

Varela orquestra tais elementos de modo sutil, não opta por uma crítica política frontal, evita frases de efeito, contenta-se com suportes tradicionais. Porém, o próprio uso dos métodos de um desenho que se amplia a partir de uma repetição de traços diminutos, como se o absoluto descompromisso gerasse a massa pictórica, a mancha gráfica, faz da arte de Pedro Varela um caminho, um destino, mantido de modo estóico, em condutas retornadas, mas subversivas. Pedro revê o passado, ao mesmo tempo em que o atualiza, foge e se utiliza da figuração, acumula paisagens de pinturas históricas e inventa outras tantas, traça linhas geométricas mas as coloca erráticas, traindo as regras da composição com a insegurança da manufatura.

Em outro caminho, vemos a arte de Pedro Varela lidar com o tempo da narrativa em planos superpostos, tal qual encontramos no empenho de Alberto da Veiga Guignard ou, mesmo, nas gravuras de Goeldi, ao observar a planaridade pictórica, o flatbed, ativando uma perspectiva, uma paisagem, que só poderia acontecer nas fábulas.

"Un passé qui ne passe pas" é uma expressão do historiador Henri Rousso que se dedica ao desafio de fazer história com o tempo presente. Ou seja, tomar distância dos fatos atuais e conseguir buscar arquivos de algo que mal começou. A arte, como nos informou Jean Luc-Nancy, é coisa do passado, mas, ainda assim, insistimos em encarar o presente e dele tomar distância

Marcelo Campos
Março de 2017