Adrianna eu | O Mergulho de Narciso

Do outro lado do espelho: Adrianna eu e os outros

“Quanto ao espelho, ele é o instrumento de uma universal magia que transforma as coisas em espetáculos, os espetáculos em coisas, eu em outrem e outrem em mim.” (Merleau-Ponty, O olho e o espírito, 1960)

O que vemos diante de nós? Espelhos. Não apenas isso. Algo a mais, certamente. Espelhos são objetos que concentram em si o fascínio humano pela imagem refletida, mas acima disso, guardam uma dimensão simbólica, a partir da reflexão que são metaforicamente capazes de despertar. Olhar nossa própria imagem numa superfície refletidora é, em certa instância, repetir o gesto de Narciso. Não em sua literalidade, no ato de apaixonar-se por sua própria imagem, como um Outro, mas em seu caráter analítico, no reconhecimento desse “outro” como algo do qual fazemos parte, mas que é diferente de nós, justamente por representar uma natureza inconsciente. Assim, a fixação de Narciso em sua imagem é o índice de seu processo de autoconsciência. Como nos fala Merleau-Ponty, o espelho torna-se dispositivo por meio do qual um “eu” transforma-se em “outrem” (e vice-versa), misturando corpo objetivo e corpo fenomenal, uma vez que a imagem especular é extensão da relação subjetiva e sensorial com nosso próprio corpo e deste com o mundo.

Mas aqui, diante de nós, não há apenas espelhos e reflexos, uma vez que toda obra não se reduz a seu objeto ou ao fenômeno que este produz. A obra possui igualmente uma dimensão simbólica, que pode ou não coincidir com a do objeto. Vejamos, então. O conjunto de trabalhos expostos – obras, em sentido estético – possui na corporeidade e na função refletidora do espelho sua substância poética. Esses trabalhos constituem um recorte da produção da artista Adrianna Eu, que já há algum tempo utiliza-se de espelhos, vidros e cristais, entre outros materiais, para corporificar certos aspectos de sua investigação artística. Esses sentidos atrelados à capacidade refletidora/reflexiva do espelho parecem assumir uma função tautológica ampliada no trabalho de alguém que possui o pronome “eu” em seu nome artístico. “Eu”, como afirma Adrianna, não se fecha em si, mas tem implícito um “outro”, uma identidade que só pode se constituir através de uma relação de alteridade. Para a artista, essa dimensão de troca, de contiguidade, é fundamental.

Entre os trabalhos que Adrianna Eu apresenta, há O Outro, antigo espelho de mão, sem prata, cuja imagem não é refletida, transpassado por um furo e uma linha – ele inaugura e sintetiza literal e metaforicamente a percepção do espelho não como uma superfície opaca, mas transparente, como um “através”, que mais do que repetir/refletir, mostra aquilo que não se poderia ver, o que está do outro lado. Em Dourados Como a Ilusão, um conjunto de estojos de maquiagem fixados em espelho maior reafirma a identidade fragmentada frente nossa busca por construção de determinadas imagens-disfarces, máscaras cotidianas. Na série Mergulho de Narciso, espelhos de mão ganham ares barrocos, reproduzindo fantasiosamente o instante em que a superfície especular se modifica após o mergulho, através do deslocamento da água. Nesse caso, os espelhos tornam-se objetos delirantes, cujos reflexos transformam-se e modificam a imagem daquele que se coloca diante deles. Em comum nesses trabalhos, o uso de objetos antigos, desgastados pelo tempo, muitas vezes com marcas, falhas, rachaduras – o que aparece potencializado em Autorretrato da Artista, quebra-sol espelhado, decorado com gravação de elementos florais e a presença da expressão “Hei de Vencer”: embora o estado da peça reforce sua aparente obsolescência enquanto objeto de uso, a inscrição direcionada ao futuro afirma a constância projetiva de um desejo compartilhado.

Por fim, incluem-se os trabalhos inéditos da série Lago dos Cisnes, imagens fotográficas de forte poder simbólico e narrativo, guardando uma dimensão fabular. Novamente as superfícies de espelhos emoldurados induzem-nos a pensar na água e no reflexo fragmentado, mas agora, posicionados no chão escuro da floresta, repleto de folhas secas, refletem o céu e a copa das árvores, mostram-nos aquilo que o enquadramento da imagem fotográfica não nos permitiria ver. Como na história homônima, em que uma princesa é transformada em cisne, a identidade da menina em pé sobre esse lago figurado encontra-se velada, ao mesmo tempo em que, ao encobrir seus olhos com as mãos, diferentemente de Narciso, parece evitar o confronto direto com alguma imagem mais específica. O espelho em muitas culturas é um instrumento de adivinhação, pois permite ver para além da realidade aparente, o que nos possibilitaria pensar na natureza do encontro que não é mediado pelos olhos, mas pela extensão do próprio corpo. Aquilo que foi visto ou deixou de ser, só pode ser fruto de uma reflexão dialógica da personagem com seu observador, o espectador, prostrado diante de tais imagens. Eis justamente o momento em que somos confrontados, tal qual Narciso, com esse Outro, perante nossos olhos. Aquilo que a imagem reflete caberá a cada um compreender