Ivan Grilo | Preciso te contar sobre amanhã

TRÊS VENTOS

Sem o outro, falar sobre amanhã seria não dar ao hoje a chance de ser. E este é um convite ao encontro: passado, presente e futuro. Três ventos inquietos que seguem direções cruzadas. Entre os sopros, se abre uma fresta, uma lacuna, uma brecha. Não ausência, nem falta. Mas uma poeira visível a quem busca decantar sentimentos de tempo. 21 gramas.

Se todas as trajetórias são possíveis, por que seguir apenas uma? Uma que teima em engolir as vírgulas e as interrogações. Uma que insiste em imobilizar os porquês. E se a travessia do tempo não se curvasse a ela? Viveríamos em uma ciranda que se reescreve a cada ponto, em que nada se fecha, nada está salvo, nada é perdido.

Esta é uma escavação na contramão de nostalgias e em direção às palavras opacas, nubladas, silenciadas. Em tempos de opressões, grandes são as sutilezas*. Sutilezas ecoadas: ao som das panelas, o toque de Obaluayê. Sutilezas coroadas: na cabeça do Chico, ouro de Rei. Sutilezas retratadas: nas vozes sem rosto, batalhas esquecidas. Sutilezas hasteadas: em dias cinzas, bandeira branca.

No percurso, tudo é semente. É preciso nutri-la ao tempo. Um tempo que não pertence a ninguém, mas que se faz em você aqui. Talvez você ainda não possa ver os frutos. Talvez você já possa comê-los. Pois só assim fazemos esta individual – de outros.

com Ana Luiza Gomes e Anita Giansante
Setembro, 2016

*Inspirada em frase dita por Millôr Fernandes, 1972