Horizonte Generoso | Uma experiência no Pará




Horizonte Generoso



(ao meu amor)

Assim que o avião pousou em Belém, procurei, como de costume, a reserva do hotel na pasta de papéis impressos da viagem. Já eram mais de onze horas da noite e, após contato com a produção da exposição que me trazia até a capital paraense, descobri que, por conta de uma convergência de enganos, não havia reserva para ser encontrada. Armando Queiroz me enviou uma mensagem de boas vindas, e lhe respondi descrevendo minha situação: sozinho, no aeroporto de uma cidade desconhecida, às 23h, sem ter para onde ir. Tentamos duas ou três pousadas sem sucesso antes de Armando me dizer “Achei uma com vagas! Quer ver se gosta? Chama-se Machado’s Palace!”. Eu nem precisei checar as fotos online. Machado é o instrumento de Xangô: seu palácio é minha casa. O hotel foi ótimo, mas, no dia seguinte, me mudei para a Pousada Itaoca, mais próxima do Centro. Da mesma forma: Ita-pedra, Oca-casa. E a pedreira é a casa de Xangô. Uma semana mais tarde, Orlando Maneschy me ensinaria que essa é uma situação na qual você diz: “Está uma loucura em Belém!”.

A semana que passei nessa cidade foi uma sequência de fortes encontros que só pode gerar análises positivas e superlativas. O descompasso entre o ritmo que eu trazia (que me fez marcar de 4 a 6 reuniões todos os dias) e o ritmo da cidade (atrasos certeiros e chuvas de consequências imprevisíveis) fez com que, no último dia, eu quase chegasse aos limites do meu corpo. Nessa situação, Alexandre Sequeira me ofereceu uma chave de abrigo, ventilador e meia hora de sono antes de seguir os trabalhos. Foi de uma conversa com o mesmo Alexandre que surgiu a expressão Horizonte Generoso: ele descrevia um tipo de perspectiva gerada pela topografia da cidade, mas logo entendi que a expressão poderia ser aplicada perfeitamente à paisagem humana de Belém.

Nas horas de conversa no apartamento de Elza Lima, fiquei maravilhado ao mergulhar no acervo dessa que acredito ser uma das maiores fotógrafas do Brasil. Há muito dela que ainda não foi visto. O modo como as cenas se formam à frente de sua câmera é quase mágico, e em seu trabalho podemos perceber as maneiras muito complexas com que as culturas das comunidades amazônicas se constroem, costurando a natureza com relações.

Outro trabalho fotográfico poderoso é o de Luiz Braga. Seus arquivos são absolutamente organizados e bem cuidados. Nossa conversa aconteceu no único momento possível para os dois. Muito além da capacidade impressionante de obter coloridos e rastros, Braga consegue encontrar, destacar e nos oferecer para apreciação sopros, espíritos, da cultura amazônica. A importância fundamental das narrativas que cercam cada uma de suas fotografias nos faz pensar se não vem também da oralidade negra e indígena a força de sua produção. A mesma pergunta vale para o trabalho de Alexandre Sequeira, que se realiza a partir de dispositivos que propõem formas de relação. As fotografias resultantes são iluminadas pelos resultados vivos do trabalho e ganham forma pelas narrativas que as cercam.

Algo que pude reconhecer como traço recorrente no comportamento do povo do Pará é o fato de estarem corriqueiramente ariscos. Na obra de Elza, Luiz e Alexandre é possível encontrar cenas em que vemos retratado esse estado de prontidão para o conflito, que pode se desfazer com facilidade por sua realização (violentamente, sexualmente…) ou pela percepção da inadequação.

A violência no Pará atravessa a investigação de muitos artistas desse estado. Alberto Bitar, por exemplo, fotografou cenas reais de assassinatos para assinalar a transitoriedade das coisas vivas. Com o obturador aberto, o corpo morto se mantem definido enquanto os vivos se tornam fantasmas. Contudo, é a tensão da presença demorada da câmera com o defunto que dá tônus a essas fotografias. A investigação sobre a perecibilidade das coisas se estende também para os cemitérios de documentos, ferros-velhos de carros e aviões.

Minha conversa com Alberto Bitar aconteceu na KamaraKó Galeria, que surgiu da agência fotográfica de mesmo nome fundada em 1991 responsável por reunir e difundir parte importante da produção dos fotógrafos da região. Naquela mesma tarde, visitei a exposição de Keyla Sobral na Casa das Onze Janelas, onde no dia anterior eu tinha conversado com Armando Queiroz, atual diretor do espaço. A força, a resistência e a beleza de Armando e de sua produção tem ressoado coerentemente na programação da instituição. A produção de Keyla e a de Orlando Maneschy são muito interessantes por partir necessariamente de um contexto amazônico, com sua cosmovisão e seu imaginário, mas resultar em trabalhos que tratam de questões pertinentes, de uma forma mais direta, a todo humano. Compõem ainda a exposição algumas fotografias de Guy Veloso, que é o único dos artistas dessa mostra que não encontrei no Pará, mas cujas obras são importantes para construir no espaço expositivo parte da experiência que vivi em Belém.

Horizonte Generoso é a primeira mostra do projeto em que a Luciana Caravello Arte Contemporânea convidará anualmente um curador para fazer um recorte da produção de arte contemporânea de um estado brasileiro fora do eixo RJ/SP. Reconhecendo o tamanho e a complexidade da produção do Pará, decidi que essa exposição seria o resultado de uma primeira experiência de pesquisa no local. Horizonte Generoso me permitiu novas perspectivas também ao deixar evidente o quanto um curador com uma pesquisa sólida pode transformar todo o sistema das artes de uma cidade. Horizonte Generoso é um resultado e um outro começo de desenho.