James Kudo | Epítome da Paisagem

Epítome da Paisagem



Dois importantes eventos históricos, catalizadores e disruptivos, estão na origem formal desta exposição, que se assume também como uma homenagem pessoal de Kudo ao multifacetado artista uruguaio Joaquim Torres Garcia. Em ambos esses eventos a distância do tempo passado – já inacessível, mas ainda, de alguma forma, bem presente – e sua memória – seu mais difuso registro -, funcionam afinal como fortes veículos propagadores de sua potência, de sua força, de sua intensidade. São eles que se configuram neste epítome de paisagem em que vive – e de onde escorre -, o seu mais vigoroso e denso eco, transversalmente atuante no fazer e na obra de James Kudo.

Numa madrugada de julho de 1978 um incêndio devorava inteiro o acervo do MAM do Rio de Janeiro, destruindo 80 telas do artista uruguaio Torres Garcia. Desde sempre uma forte influência no trabalho de Kudo, é nesta sua terceira exposição individual numa galeria carioca que o artista simultaneamente homenageia o tão profícuo criador, e referencia esse trágico evento, para sempre associado à sua vida e obra. E aqui é forte a rima com o outro acontecimento, também transversalmente atuante e influente, habitante das memórias mais pessoais do artista paulistano: em 1990, a antiga cidade Novo Oriente, construída por imigrantes japoneses no início do século 20, foi inundada pelas águas da usina hidroelétrica de Três Irmãos. A casa que o avô do artista tinha construído, e onde este viveu até aos 9 anos de idade, tão fecunda origem de vivências e memórias, foi demolida e o lugar submergido. E talvez aqui a forma não seja de menor importância, pois se num dos casos o fogo consumiu totalmente as obras do artista uruguaio, no outro toda essa realidade passada sobrevive e permanece, de certa forma até mais viva, reforçada e sublinhada, na suspensão poética e difusa das águas fundas que a cobrem inteira, literalmente.

Esta dicotomia aparência/essência, lembrança/realidade, artificio/natureza, será um dos eixos fundamentais da obra de James Kudo: uma pintura que brinca a ser colagem, que mimetiza a natureza até reproduzindo a própria fórmica – uma imitação da madeira -, se servindo ora de fundos leves e elementos suspensos, ora de cores naturais e padrões decorativos parados em ambientes mais carregados. O irônico e o simbólico, o decorativo e o onírico, o plástico e o figurativo dançam aqui inteiros: simultaneamente estagnados e atuantes, congelados e pulsantes, fechados no seu tempo e em sutil relação com o outro, o diverso, o diferente.

A capacidade de integração e de convivência destas paisagens – em que os elementos se configuram como fortemente simbólicos, mas também claramente vivos e orgânicos, suspensos e animados -, a própria dessemelhança de origens e naturezas, nos soam como um hino delicado a uma horizontalidade acolhedora e múltipla. Aqui, o presente e o relembrado, o espaço e o tempo, o artificial e o natural, todos se enriquecem e se complementam, formando uma igualitária e complexa metáfora equânime, lugar simbólico de todas as interioridades, de todas as manifestações, de toda a exterioridade.

E é também à luz forte de toda esta subjetiva interpretação e leitura, que podemos reler com outro tom as palavras breves do artista: “Ainda pinto paisagens…”