Em cada gota há um arco-íris – Alexandre Mazza


Fechado no ser, será necessário sempre sair dele. Mal saído do ser será preciso sempre voltar a ele. Assim, no ser, tudo é circuito, tudo é rodeio, tudo é discurso, tudo é uma Romaria, tudo é refrão de estrofes sem fim.  E que espiral é o ser do homem!

Gaston Bachelard. “A Poética do Espaço”.


Aquilo que fica não é aquilo que está

Alexandre Mazza formou seu olhar graças ao ouvido. Músico autodidata, atuou por vários anos no showbizz do Rock até que, em um período de transição profissional, trocou o som pelas artes visuais. Ao mudar de campo, não hesitou em se inspirar nas referências estéticas que mais conhecia, muitas delas pertencentes às noites frenéticas de amplificadores, holofotes e fumaça que preencheram sua vida.

Assim, a produção artística de Mazza surge carregada de memórias de luzes, superfícies vinílicas, pistas sonoras, cabos, pedais, teclas, equipamentos, vibrações. Ainda que a obra não explicite essa “bagagem” anterior, ela traz indícios, seja nos materiais utilizados como nas formas exploradas – mesmo que o ruído do pop espetaculoso fique propositalmente de fora.

Tendo conhecido de perto visualidades e sensações de paraísos artificiais, Alexandre Mazza se interessa por artistas que propocionam experiências estéticas sublimes e silenciosas, em projetos que primam pelo apuro técnico e científico. Anish Kapoor, James Turrell, Olafur Eliasson, Robert Irwin, entre outros, além do racionalismo minimalista de Dan Flavin, são algumas referências conceituais, formais e técnicas presentes na produção do artista, e especialmente nesta mostra.

Do mesmo modo que os mestres contemporâneos, há o uso de materiais fluidos como água, ou impalpáveis como luz e som. Em contraposição, estão outros, de precisão e dureza, delicados ou brutos, como vidro, acrílico, mármore, metal e pedras preciosas. Tais combinações, transpostas em esculturas, back-lights e instalações, tensionam suavemente, em vários momentos, a relação entre artificialidade e natureza, a qual se coloca cada vez mais complexa em nosso tempo. No entanto, o conjunto de obras aqui apresentado está voltado para uma reflexão mais próxima do espiritual, do que do contexto social ou histórico que o engendra.

Longe de ser uma completa homenagem aos mestres, ou de se colocar apenas como um grande laboratório experimental, esta mostra é um comentário pessoal da própria trajetória profissional do artista. Nesse sentido, a “metamorfose” como um processo de transição existencial é uma idéia que costura a exposição, sendo ilustrada por Mazza com belos insetos, apresentados em vários trabalhos.

Alexandre Mazza, cuja trajetória é ainda recente, apresenta nesta primeira individual obras seminais, que acenam futuros desdobramentos estéticos potentes e sensíveis. Sua produção aponta para um campo pouco explorado artisticamente no Brasil, que é este das poéticas apoiadas em suportes tecnológicos mas opostas ao plano do espetáculo. Portanto, embora seja um artista “novo” seu olhar não é jovial, deixando para os mais jovens o tempo a ser perdido com sedutoras superfícies e efeitos especiais sem causas.

Daniela Labra

 


Release da exposição

Luciana Caravello Arte Contemporânea tem o prazer de apresentar a partir do dia 2 de fevereiro de 2012 para convidados e do dia seguinte para o público a exposição “Alexandre Mazza – Em cada gota há um arco-íris”, que reunirá em todos os espaços expositivos da galeria 25 obras inéditas do artista, feitas especialmente para esta que é sua primeira individual. A data de abertura coincide com o dia de Iemanjá, escolhida justamente porque a água é o elemento mais presente nos trabalhos feitos pelo artista para esta exposição, que ainda homenageia a rainha do mar com as cores prata, azul e branco.

As obras apresentadas acentuam a característica do trabalho de Mazza, que alia beleza e força poética, sem revelar a complexidade que envolve sua estrutura, como é o caso da instalação que dá nome à exposição – “Em cada gota há um arco-íris”. A obra ficará sozinha em uma sala completamente escura, com quatro espelhos em cada parede, tendo ao centro um aquário redondo, que ao receber um feixe de luz terá sua imagem rebatida ao infinito por todo o espaço. “A ideia é criar um ambiente que nos remeta ao universo, à infinitude. Na medida em que a luz atinge a água em um ponto preciso, o aquário se transforma em um prisma, resultando nas cores do arco-íris”. “Em cada detalhe pode haver um universo”, salienta Mazza.

Em outra obra, um aquário redondo preso a um suporte recebe a projeção de uma imagem de um peixe nadando. Por sua vez, o próprio aquário também será refletido na parede, transpondo o limite do objeto. “Até que fronteiras o artista pode chegar? O que é liberdade?”, questiona Mazza.

“Metamorfose – Borboletas”, em que utiliza acrílico e borboletas reais, devidamente autorizadas pelo IBAMA, “por simbolizarem a incrível metamorfose da lagarta, passando de um casulo feio para uma beleza exuberante”. O processo de transformação é uma das questões trabalhadas na exposição. “A superação, a transformação, o lidar com os obstáculos, as escolhas diárias, tudo isso faz parte da vida das pessoas, e aqui refletem minhas proprias mudanças e a de meu trabalho”, explica.

Outra sala abrigará quatro esculturas. Tês cubos, geometricamente perfeitos, de granito maciço de 200 quilos cada, têm um fio de néon que atravessa a matéria formando diferentes desenhos. Uma quarta obra, relacionada com essas três, traz o filete de néon perpassando um bloco de granito em pedaços.

Mais dois trabalhos têm destaque: a obra “Um”, formada por um conjunto de prismas de mármore branco, que ganha forma de edifícios em que apenas um deles é de acrílico e iluminado. “Dan 2”, com três cilindros de mármore apoiados na parede com uma luz fluorescente iluminando a obra, é uma referência ao artista americano Dan Flavin (1933 – 1996). “Dan Flavin é o meu ídolo máximo nas artes plásticas”, diz Mazza.

Biografia

Alexandre Mazza ou apenas Mazza, como assina seus trabalhos, nasceu no Estado do Paraná e vive no Rio de Janeiro há 22 anos. Com formação musical, trabalhou durante 18 anos como baixista e compositor. Participou de criações gráficas para vídeo clip com o diretor francês David Bartex, e trabalhou também com concepção para iluminação de shows. Neste momento, começou sua relação com a eletricidade e a “LUZ”. No final de 2008, Mazza largou tudo o que fazia e passou a se dedicar somente ao que chama de “Multiplicação da Luz”, utilizando diversos materiais, tais como espelhos, vidros, metais, lâmpadas, acrílicos e madeira. Tem verdadeiro fascínio pela ilusão de ótica, seus trabalhos não são estáticos, o artista os denomina como “Arte Elétrica Viva”, utilizando luz quente e fria, sempre com duas visões da obra: “Ligada e Desligada”.

Abertura

02 de fevereiro de 2012

19h às 22h

 

Visitação

03 a 10 de março de 2012

seg a sex – 10h às 19h e sáb – 11h às 14h

 

Luciana Caravello Arte Contemporânea

Rua Barão de Jaguaribe 387 – Ipanema

Rio de Janeiro, Brazil, 22421-000

+55 21 2523.4696