Nazareno | Aqui do lado de dentro!

Aqui do lado de dentro!



Como definir o cosmos de Nazareno, em sua condição tácita e vibrátil, feito de puro dinamismo? Como definir esse microuniverso em busca permanente de sinais, remissões que redesenhem um gesto concentrado e primordial, como um alfa cheio de luz e calor? Como defini-lo, em sua liberdade radical, como compreendê-lo sem o aprisionar?

Nazareno é essencialmente um poeta do espaço. Não do espaço puro, bem entendido, mas do espaço regido por um deus ludens, que o faz crescer e diminuir, como se buscasse os gigantes da Antiguidade e as províncias de Liliput. Um poeta do espaço dentro de um cosmos sazonal, retrátil e expansivo: nas variações de escala, na taxa demográfica de objetos, que se nutrem de espaço, que dentro dele se descobrem e com ele se confundem. Espaço objetal onde, ao fim e ao cabo, surgem novas e estranhas potências. Pluriformas de ocupação territorial, ora recatadas, ora sabiamente dispersas. Sempre em movimento de fuga e torna-viagem, num feixe de convergência ou então acêntrico, deslocado, fora da moldura, com inesperadas saídas de emergência.

O artista exerce uma espécie de teologia do jogo, uma herança em que nada se perde: antes se transmuta na poesia do espaço, dentro de uma razão combinatória de acaso e necessidade, com imagens portadoras de límpidas modulações, sobrepostas, com céleres passagens de ritmo e semântica, seguindo uma recorrente flutuação de sentido e diversidade de conceito. E desde os títulos lapidares, criados por Nazareno, que parecem uma inscrição rupestre, dura e suave.

Nazareno é um poeta do espaço, com saudades das matrizes, míticas, de um passado que tudo devora como esfinge. Mas o segredo pode estar nas flechas que têm sede de futuro. Nessa ucronia inscreve-se com rara sensibilidade a obra de Nazareno, saudosa do futuro.