Ana Linnemann | Exposição de Galeria

A outra vida dos objetos



“Exposição de galeria”: mais derrisório que tautológico, o título sugere a existência de um “estilo” ou maneira de conceber e realizar exposições em função da teatralidade própria à situação-galeria. A disposição estática de objetos em uma cena frequentemente impensada, ou assumida em sua dimensão positiva, sustenta-se na crença e na aposta no encontro entre o que o artista mostra e o que o espectador vê. Contrariando esse modelo, Ana Linnemann propõe aqui um conjunto de objetos que expõem o que em geral neles está oculto por estar demasiado presente.

A galeria torna-se assim o espaço de uma outra pesquisa e de uma inusitada cumplicidade: entre a artista e a desobediência silenciosa mas plasticamente eloquente de pregos e molduras, chassis e telas. Constrangidos por uma vida inteira de bom-comportamento e adequação entre função e forma esses objetos ordinários, ao serem desfigurados, tornam-se protagonistas.

Ana Linnemann não reflete sobre objetos, pensa com eles. O próprio objeto, em sua concretude aparentemente imutável, revela-se aqui dispositivo dinâmico, deflagrador de perguntas para as quais as respostas são novas questões que conversam entre si. O que mostramos quando expomos? Será o/a artista um tipo de Sísifo obstinado na repetição infinita de um gesto tragicamente ineficaz? Ou um tipo de clown cujo heroísmo é a exibição de sua própria impotência? E um objeto? E um objeto mutante? Será o estorvo da espécie que arrasta a espécie consigo ou a aberração que inaugura uma nova linhagem? Uma moldura que deixou de emoldurar, pode ainda pertencer à categoria dos objetos circunscritos por esse nome ou essa insurreição afeta sua ontologia, direcionando-os para o mundo vivo do animal humano, o insatisfeito da espécie. É impossível não notar que estes trabalhos se comunicam com o espírito de revolta antropomórfica presente nos cartoons da década de trinta, quando pianos, harpas e garrafas de leite ganhavam braços e tocavam em si mesmos entre gotas de chuva e sapos dançantes.

Se o dinheiro falasse, a história econômica seria certamente diferente. Se a história da saída da moldura tivesse sido narrada do ponto de vista do prego e da moldura, seria outra a história da arte contemporânea. A pintura mil e uma vezes libertada, morta e ressuscitada, abafou o caso da moldura descartada e reabilitada sem nunca ter vivido o gozo glorioso de sua liberação.

Ao tomar o partido das coisas, a artista propõe um exercício perspectivista e o faz evitando simultaneamente o caminho da utopia materialista ou do onirismo surrealista. Nada aqui está situado numa região revolucionária de sonhos, são objetos infrarrealistas que liberam o riso das formas aptas a mudar de espécie, perder ou abandonar sua anatomia. Impossível saber se esse riso é um mau presságio ou sintoma de um alívio, mas é seguramente o índice do tumulto criado na lógica identitária que postula tradicionalmente o objeto a partir do ajuste entre forma e função.

A insurgência sardônica deste conjunto parece realizar bem mais do que um deslocamento, desarma a crença herdada da existência de uma diferença ontológica entre o objeto artístico e os “outros” objetos – cotidianos ou extraordinários. Torna-se então possível enfrentar a funcionalidade (decorativa ou estética) da própria arte “de galeria”, jogando-a contra o fundo de uma lógica de produção mais ampla e insidiosa, que não cessa de administrar a distância entre a aparente passividade das obras e suposta vida ativa do olhar.