Marcelo Solá | Amor e Agressividade

Marcelo Solá – Amor e Agressividade



A exposição “Só o excesso”, de Carolina Ponte, reúne produções em desenhos e objetos, onde a artista se destina a mostrar o excesso, a sobra, o que emoldura vazios. Assim, Carolina nos exibe partes de arquitetura, como frisos, ornamentos que, em teoria, deveriam circunscrever conteúdos. Com este gesto, Ponte ativa uma dualidade, uma ambivalência em nos colocar ante ao que não teria protagonismo, anulando uma possível parte principal.

A produção de Carolina Ponte se dedica, justamente, à observação dos ornamentos, do gesto excessivo, do “gasto improdutivo”, nos termos de Bataille. Ao produzir objetos em crochê e desenhos multicoloridos, a artista nos faz espectadores de imagens originalmente ligadas à decoração de templos. Por outro lado, também, vinculadas a ritos profanos, momentos em que temos contato com o gasto improdutivo: enfeites, fantasias para consumações catárticas. O trabalho da artista se aproxima de uma espetacularização da forma. Orna para nada. Perdendo o núcleo, frisos e molduras são, em si, assunto principal, janelas cegas. Carolina apaga, anula as informações, e nem por isso atentamos para a falta, mas, antes, para a vontade humana de se dedicar ao excesso.

Georges Bataille lança o conceito-chave para estas discussões quando, em 1933, tratou do dispêndio, do “gasto improdutivo”. Bataille nos explica que “há uma pressão permanente provinda de um excesso que perturba os organismos vivos, havendo, então, a exigência do desperdício, do gasto ou da descarga.” Ou seja, a moldura, as ordens decorativas, o enfeite art nouveau são, sob esta perspectiva, uma exigência do desperdício. E tal exuberância só pode pretender o vazio, o lugar do sentido, para sempre velado. É este o jogo que o trabalho da artista nos indica.

A arquitetura funcionalista moderna tinha horror ao ornamento em oposição ao horror vacui (horror ao vazio), do período Vitoriano. Sabemos que o uso excessivo de imagens e elementos ornamentais teve grande influência das culturas não-ocidentais, ativadas pelo primitivismo que se anunciava em fins do século XIX.

Os trabalhos de Carolina Ponte nos situam nesta ambivalência, fornecem ornamentos, cores, volutas, detalhamentos excessivos para o vazio. Neste sentido, criam o que Bataille chamava de fenômeno cósmico. Sim, explosões, espirais, poeiras de estrelas geram condições para que percebamos o infinito, como no cosmos.

Esbanja-se, destrói-se, perde-se, estas são conjugações de verbos para a construção da arte. Obviamente que ao tratarmos da perda, pensamos numa sociedade justificada entre o trabalho e a fabricação capitalistas, desfazendo-se da artesania, em favor da produção industrial. Ser perdulário, assim, é um gesto de inconsequência, de certa barbárie para os usos da civilização.

A arte ganha esta tarefa inglória, produzir para nada, criar o “gasto improdutivo”. E, culturalmente, ligar-se ao excesso, só ao excesso. Mas a vida não cabe em si. Nada se atém aos seus limites, o jogo, o sexo, os espetáculos. Damos, cotidianamente, sentido ao excesso, ou melhor, compartilhamos os excessos, o alimento, as vestimentas, os rituais. Buscamos o lirismo, a junção dos sentimentos. É difícil conter o lirismo. Impossível separar o desejo.

Carolina Ponte, em seus trabalhos, cria gestos para o excesso, linhas demais, cores demais, amplos pedaços de crochê. Aproxima-se, com isso, da poesia de Manuel Bandeira que se declarava farto do “lirismo comedido”, daquele lirismo “bem comportado”, “com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.” Bandeira proclamava, antes, o lirismo dos loucos, dos bêbados.

Aqui, não devemos perguntar à artista, para quê? Para quem? Não queremos “saber do lirismo que não é libertação.”