Art16

ADRIANNA EU
ART16 – LONDON, 2016

L’ appel du vide

Eu

Sentia um desconforto incomum como se houvesse instalado um deserto por dentro. Árido. Para onde quer que olhasse, dunas imaginárias desenhavam o horizonte do absurdo. Ousou correr, mas não podia. Respirou profundamente. Tomou a tesoura em suas mãos e caminhou ao encontro deles, que lhe aguardavam no canto da sala. Estavam todos de pé, não deviam apoiar-se em nada, contudo os joelhos pareciam trêmulos; pisavam sobre um chão onde se afunda o domínio da razão. Aproximou delicadamente a ponta da tesoura, e feriu a lapela no lado esquerdo do paletó com um pequeno corte vertical. Deu um passo atrás.

Seguindo o costume do ritual, observou o enlutado levar as mãos a altura do coração, rasgando a própria roupa, camada por camada, até chegar ao peito descoberto. O ritual se cumpriu entre todos os presentes, um após o outro, rasgaram suas próprias roupas com a expressão máxima de dor. Olhou novamente à sua volta e não encontrou ninguém. Descobriu-se só no mundo.

Nós

Desde os tempos bíblicos, as escrituras religiosas judaicas relatam sobre o keirá. De acordo com a tradição, Jacob, pai de José, ao receber a falsa notícia da morte de seu filho, inconformado pelo sofrimento, rasgou suas vestes. A morte como um factual irreversível é o acidente crítico da vida. Ela é quem nos joga novamente à ânsia inaugural do nascer, quando tudo que desejamos é pertencer. Adrianna Eu em sua exposição “L’ appel du vide” apresenta a coragem de enfrentar esse vazio imensurável em nós. E nos convida a mergulhar na vertiginosa busca de um lugar, de um outro, de si mesmo. Ela sussurra em nossos ouvidos, “algumas feridas precisam ser abertas”. Com tesouras invisíveis, seremos cortados, perfurados e desabotoados das verdades que fecham as relações. E depois de nos levar para fora, de abrir as incontáveis fendas em nossa pele, a artista se aproximará de nós com sua agulha, alinhavando chagas.